
A hiperplasia prostática benigna (HPB) é uma das condições urológicas mais comuns em homens acima dos 50 anos, frequentemente associada a sintomas do trato urinário inferior (LUTS). Tradicionalmente, o tratamento clínico inclui o uso de bloqueadores alfa e, em casos de próstata aumentada, inibidores da 5α-redutase (5-ARIs). No entanto, com o avanço da radiologia intervencionista, a embolização da artéria prostática (PAE) tem se consolidado como uma alternativa minimamente invasiva.
O estudo PARTEM (Prostatic Artery Embolization versus Medical therapy), publicado recentemente, trouxe evidências robustas que colocam em debate o real papel dos 5-ARIs no manejo da HPB.
O Estudo PARTEM: desenho e resultados
- Tipo de estudo: ensaio clínico randomizado, multicêntrico, conduzido em 10 hospitais franceses entre 2016 e 2022.
- População: homens com LUTS moderados a graves (IPSS > 11, QoL > 3) e volume prostático ≥ 50 mL. Todos já faziam uso de bloqueadores alfa, mas sem uso prévio de 5-ARIs.
- Intervenções comparadas:
- PAE – pacientes suspenderam bloqueadores alfa após o procedimento.
- Terapia combinada (CT) – associação de bloqueadores alfa + 5-ARIs.
- Seguimento: 9 meses e 2 anos.
Principais achados
- Melhora dos sintomas (IPSS): redução média de 10 pontos no grupo PAE versus 5,7 pontos no grupo CT (p=0,0008).
- Qualidade de vida: melhora superior no grupo PAE (diferença de 1,7 pontos).
- Função sexual: nenhum paciente submetido a PAE apresentou disfunção erétil ou ejaculatória de novo. Pelo contrário, houve melhora nos domínios sexuais. Já os 5-ARIs são conhecidos por reduzir a libido e aumentar o risco de disfunção erétil.
- Adesão ao tratamento: a taxa de não adesão ao regime medicamentoso foi de 23% em 9 meses e 26% em 2 anos, refletindo o cenário de vida real.
- Intervenções adicionais: em 2 anos, apenas 12% dos pacientes do grupo PAE necessitaram de nova intervenção, contra 47% no grupo CT.
- Parâmetros objetivos: redução do volume prostático (22–26%) e do PSA (40–44%) foram semelhantes nos dois grupos.
O que esses resultados significam?
O estudo PARTEM demonstrou que a embolização da artéria prostática é mais eficaz que a terapia medicamentosa combinada no controle dos sintomas urinários, preservando a função sexual e reduzindo a necessidade de cirurgias adicionais no período de 2 anos.
Embora defensores dos 5-ARIs argumentem que seu benefício se mostra em prazos mais longos (5 anos ou mais), a baixa adesão medicamentosa ao longo do tempo levanta dúvidas sobre sua aplicabilidade real na prática clínica.
Assim, a PAE se consolida não apenas como alternativa terapêutica, mas como potencial estratégia preventiva, com resultados comparáveis à redução da progressão da HPB atribuída ao uso prolongado de 5-ARIs.
Conclusão
O estudo PARTEM representa um marco na literatura ao comparar, de forma prospectiva e multicêntrica, a PAE com a terapia medicamentosa para HPB. Seus resultados fortalecem a posição da radiologia intervencionista no manejo da doença, trazendo benefícios tanto em qualidade de vida quanto na preservação da função sexual.
A grande questão que permanece é: com a eficácia da PAE comprovada, ainda precisamos dos inibidores da 5α-redutase no manejo da HPB?
Referência
* Sapoval M, Thiounn N, Descazeaud A, et al. Prostatic artery embolisation versus medical treatment in patients with benign prostatic hyperplasia (PARTEM): a randomised, multicentre, open-label, phase 3, superiority trial. Lancet Reg Health Eur. 2023;31:100672.